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O paganismo da amizade cristã

No meio cristão, em geral, existe a forma de amizade mais pagã possível. E que forma de amizade é essa? É a daquele que ama moralmente. Amar moralmente significa amar enquanto a pessoa se comporta como a gente.
Se ela for diferente ou se tornar diferente, ou mesmo tiver um comportamento diferente, mesmo que tal coisa seja apenas na área particular e privada ou envolva apenas uma decisão de foro íntimo, nesse dia, tal pessoa perderá todos os seus “amados”, pois era amada apenas moralmente. Para esses, o irmão é o igual, e o próximo é apenas aquele que lhe é semelhante.
Jesus mandou amar até o inimigo, quanto mais o diferente! Além disso, Ele disse que amar os q nos amam e tratar bem os que nos tratam bem é apenas um comportamento pagão, posto que é assim que qualquer pagão, minimamente, trata um ao outro.
Jesus disse que deveríamos buscar amar e ser amigos do jeito do Pai Celeste, que é bom para com maus e bons, e derrama Graça sobre todos. Acontece que entre os cristãos, em geral, não se alcança nem mesmo o nível pagão. A sociedade pagã é capaz de aceitar e defender o diferente, mas a igreja não é.
Enquanto este “pequeno detalhe” for assim, os cristãos não terão o respeito da humanidade, posto que até os bárbaros os superam no trato de uns para com os outros. O cristão, como é, não passa de ser o bebê da humanidade.
No dia que o cristão amar a todos os homens e for misericordioso para com todos os homens, e não se separar de outros cristãos apenas porque eles se expressam de modo diferente – nesse dia a sociedade que nos cerca verá a nossa luz, e glorificará o nosso Pai Celestial.


Gilberto Gadini, via Pavablog

Gente como gente deve ser

Dia destes estava tentando ver se lembrava do nome de meu bisavô. Descobri que não faço idéia de quem foi, o que fazia, como era, etc. Ele existiu, mas foi esquecido, e na verdade dentro de um pouquinho de tempo também eu terei sido… Será que só eu penso nestas coisas? Será que só eu tenho vontade de fazer algo para não desaparecer da face da Terra sem deixar vestígios de minha passagem? É humano buscar um jeito de permanecer. O registro bíblico conta de Absalão, que ciente do alto risco (concretizado) de morrer jovem, decidiu fazer algo para não ser esquecido.
Absalão tinha levantado um monumento para si mesmo [...] dizendo: “Não tenho nenhum filho para preservar a minha memória”. Por isso deu à coluna o seu próprio nome. Chama-se ainda hoje Monumento de Absalão. (2 Samuel 18.18)
Parece que a idéia do moço não funcionou lá muito bem. Ele tentou conquistar um reino (puxando o tapete do pai) e passar para a história construindo uma auto-homenagem. Para investir em algo que dure para a Eternidade, é bom investir no que continuará na Eternidade: gente.
Cristianismo é uma questão de gente. Começou com o Ser Supremo e Absoluto sobre tudo e todos, Deus, tornando-se gente; e como gente, o apóstolo Paulo chama Jesus de “varão perfeito”, traduzido maravilhosamente pelo Pr. Ariovaldo Ramos: “gente como gente deve ser”. Isto porque, depois da Queda, cada um de nós se desumanizou – tornou-se menos gente. Mas, tendo Jesus se feito gente, obedeceu até o fim e morreu por amor de… gente. E tem passado estes últimos dois milhares de anos chamando gente, reconstruindo por meio de seu Espírito cada um daqueles que atendem seu chamado, transformando-nos de novo em gente como gente deve ser. É um processo (garanto que no meu caso estou longe de ser como deveria). Cristo está sendo formado em nós, diz Paulo.
Quer fazer algo que dure para a Eternidade? Cuide de gente em nome de Jesus, e deixe marcas de amor que permanecerão para toda Eternidade.


Miguel Herrera, via: Bereia Blog 

Vamos esclarecer as coisas!



Os tempos ficarão difíceis, não para a Igreja Evangélica, mas para aqueles evangélicos que:


  • insistirem que a Bíblia é inerrante; 
  • acreditarem que foi Deus que criou o mundo e não a evolução; 
  • afirmarem que o casamento é entre um homem e uma mulher; 
  • declararem que só Jesus Cristo salva e que o Cristianismo é a única religião verdadeira; 
  • acreditarem na necessidade da Igreja; 
  • se recusarem a negar qualquer das posições acima.

  

Por: Augustus Nicodemus Lopes      

Pastores ateus

Definitivamente não dá. A alienação é muito grande! Às vezes, entre um e outro canal, passo por uma dessas redes com “programas evangélicos”. Paro e tento assistir, mas é de lascar!
Não tenho nada contra os pobres, aliás, nesse país de corruptos sou também mais um pobre lutando pra melhorar de vida. Mas sou contra os pobres de espírito, que só são assim porque sequer abrem o tesouro da Palavra que Deus lhes deu de graça. É gente que entre a Palavra de Deus e a palavra do profeta fica com a palavra do profeta, por mais absurda e contraditória que seja essa palavra.
Pra quem não conhece a Verdade, qualquer palavra se torna verdade.
Em sã consciência não dá pra ficar diante desses ambulantes da fé por muito tempo. Aliás, não me lembro de ter assitido a um desses programas evangélicos do início ao fim. De modo geral acabo vendo, na maioria das vezes, um bando de ladrões usando o nome de Deus; tomando o nome de Deus em vão. Sinceramente, creio que boa parte desses pastores mercantilistas é constituída de ateus. Estão apenas disfarçados de pastores. Eles não temem as conseqüências; e não as temem porque não crêem em Deus. Colocam na boca Daquele em quem não crêem o que Ele nunca disse. Mentem descaradamente! E mais: não pregam a Bíblia, porque não a entendem (ou a desprezam). Antes, pregam a si mesmos, pregam suas neuroses, suas convicções egoístas e mesquinhas. Vivem de estorquir os pobres para encherem seus cofres pessoais.
A estes Jesus dirá no dia do juízo final: “Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade.” (Mateus 7:23). O contexto bíblico revela que Jesus se referia aos que se levantavam como líderes e pastores do povo.

Definitivamente, não sou esse “evangélico” dos brasileiros manipulados por tele-evangelista em busca de fama própria. Sou sim um cristão no sentido mais puro da palavra. Pelo menos tento ser. Tento ser um pequeno Cristo, que é o significado original do termo “cristão”. E quanto mais eu tento parecer com Cristo, mais me causa asco essa tranqueira toda, dita em nome de Deus, em franca oposição a tudo o que o Senhor pregou e viveu.
Não é de hoje que os manipuladores usam o nome de Deus, passando-se por cristãos para se enriquecerem. Soube que certa vez perguntaram a Mahatma Gandhi se ele cria no cristianismo. E sua resposta foi: “No vosso Cristo eu creio, no vosso cristianismo não”.
Deus nos dê sabedoria e entendimento para nos livrar da arrogância disfarçada de evangelismo, do egoísmo vestido de piedade, do mentiroso maquiado de verdade. Deus nos livre da ignorância de seguir quem não segue a Jesus.
Jesus censurou duramente aqueles que pregavam a mentira. “Ai de vós, guias cegos, que dizeis: Quem jurar pelo santuário, isso é nada; mas, se alguém jurar pelo ouro do santuário, fica obrigado pelo que jurou!”( Mateus 23:16 )
O Evangelho da Palavra é o evangelho da cura sem nenhuma corrente de 21 dias, da graça sem culpas adicionais, do perdão sem qualquer precinho por fora, da presença de Deus sem exibicionismo pessoal. O Evangelho da Palavra é o Evangelho da simplicidade e da inteligência, onde a razão e a fé andam juntas e se sentam nos mesmos bancos, acompanhadas das amigas Hermenêutica e Exegese.
Duas palavras finais. A primeira direcionada às ovelhas: “Ninguém vos engane com palavras vãs; porque, por essas coisas, vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência”. (Efésios 5:6).
A segunda palavra é direcionada aos pastores de si mesmos: “Ai dos pastores que destroem e dispersam as ovelhas do meu pasto! —diz o SENHOR. Portanto, assim diz o SENHOR, o Deus de Israel, contra os pastores que apascentam o meu povo: Vós dispersastes as minhas ovelhas, e as afugentastes, e delas não cuidastes; mas eu cuidarei em vos castigar a maldade das vossas ações, diz o SENHOR. Eu mesmo recolherei o restante das minhas ovelhas, de todas as terras para onde as tiver afugentado, e as farei voltar aos seus apriscos; serão fecundas e se multiplicarão.” (Jeremias 23: 1-3).

Por: Samuel Costa

Um Deus de desenho animado

Os desenhos animados devem ter me dado as primeiras impressões a respeito de Deus: eu o imaginava um ho­mem desgrenhado e peludo, de olhar penetrante, de dedo em riste em minha direção. Embora fosse obviamente uma pessoa boa, Deus parecia tão distante e intangível quanto um velho e enfadonho professor da escola, al­guém que dava ordens rígidas e esperava obediência.

Deus não desiste de mim



É verdade! Fique certo que se dependesse de mim eu já estaria longe (e destruído), mas o Senhor me ama tanto que me mantém ao seu lado. Ele passa os seus braços sobre os meus ombros, me abraça amorosamente e me apresenta a todo mundo dizendo ser eu seu filho. Dá pra acreditar? Justo eu? Eu que já desonrei o seu nome várias vezes... Eu que já caí tanto...

Sempre que caio me lembro que sou um desqualificado, um ingrato, um filhinho de papai que não dá valor ao nome da família; acabo sendo um mocinho ordinário que pensa ser alguma coisa. Mas aí vem meu Pai e me levanta. Ele estende a Sua mão pra mim e diz que entre nós tudo continua como antes.
É muito bom saber que Ele não permite que eu fique no chão. E isso está registrado na Bíblia. Quer ver?“O Senhor firma os passos do homem bom e no seu caminho se compraz; se cair, não ficará prostrado, porque o Senhor o segura pela mão.” (Salmo 37:23-24). Mais uma palavra de conforto a mim, o hábil em tropeçar: “... porque sete vezes cairá o justo e se levantará.” (Prov. 24:16).
No início desse ano reencontrei um amigo que não via há 20 anos (papo de gente velha, fazer o quê?). Após vários anos seguindo a Jesus ele caiu feio, desistiu da caminhada, blasfemou diante do nome de Deus e por vários anos cometeu perversidades inomináveis. Em nosso encontro de fim de tarde, aqui em Brasília, ele me confessa. “Eu fiz tudo o que foi possível pra me tornar um ateu, mas Deus não desistiu de mim.”
É isso aí. Deus não desiste de seus filhos. Deus não desiste de mim. Ele sabe do meu esforço pra me manter de pé, mas às vezes levo cada tombo... Então estendo a mão para o meu Pai, que sempre me ergue, e ainda me diz: “Eu confio em você, Samuel. Estamos juntos; vamos em frente”.
Mesmo que eu não tenha forças, Ele vai me levantar com sua mão forte, pois Deus me ama demais para me abandonar no chão. Assim, confesso como Isaías: “[O Senhor] faz forte ao cansado e multiplica as forças ao que não tem nenhum vigor. Os jovens se cansam e se fatigam, e os moços de exaustos caem, mas os que esperam no Senhor renovam as suas forças, sobem com asas como águias, correm e não se cansam, caminham e não se fatigam.” (Isaías 40:29-31). Também ouço Dele o mesmo que Ele disse àquela mulher salva de um apedrejamento: “vai e não peques mais”. (João 8: 11).
E Ele me põe de pé mais uma vez.


Samuel Costa

http://samuelcostablog.blogspot.com

A última palavra

Cristão algum está a salvo da ameaça da tentação, do peso da culpa, da sedução das dúvidas, das armadi­lhas da solidão e da raiva, de dar ouvidos às falsas promessas da hipocrisia e do legalismo. Essas "distrações" querem man-ter-nos afastados do verdadeiro alvo da vida do cristão, que deveria ser o de refletir a vida de Cristo projetada em nós.
Embora não haja soluções pré-fabricadas para as desventu­ras da vida cristã analisadas neste livro, deve ter ficado claro que todas as reflexões apontam para uma mesma direção ge­ral: Cristo.
A jornada cristã, como não deveria ser surpresa para nin­guém, começa e termina nele. O "bom conselho" definitivo é o que Maria deu aos criados no casamento de Caná: "Façam tudo o que ele lhes mandar" (Jo 2:5, NVI).
1. Leia a Bíblia sob a perspectiva de Cristo. Como os evange­lhos demonstram além de qualquer dúvida, Jesus é capaz de lançar uma luz nova e esclarecedora sobre a verdade das Escri­turas. Na qualidade de Palavra de Deus, ele pode ajudar-nos a enxergar a realidade pungente e o ensino necessário que já estavam de fato lá e éramos simplesmente incapazes de perce­ber sem ele.
Parte indispensável do crescimento cristão é, portanto, ler e aprender a interpretar as Escrituras sob a ótica de Cristo, buscando ao mesmo tempo recursos, como este livro, que nos ajudem a fazer precisamente isso.
2.        Baseie sua vida espiritual em sua lealdade a Cristo. Normalmente, entramos na vida cristã pela porta de alguma igreja, portanto é fácil confundir a essência da vida cristã com a fidelidade a determinada comunidade.
Se a conversão foi precedida de muita dúvida e reflexão, pode ser que ainda imaginemos a decisão ao lado de Cristo como um posicionamento ideológico, a adoção da nossa parte de uma série de conceitos e princípios a respeito de Deus, da integridade e da salvação.
A vida cristã é, no entanto, definida por nossa lealdade a uma pessoa, não a uma comunidade ou a um conjunto de idéias. A nossa relação criativa com a comunidade cristã da qual fa­zemos parte e a nossa fidelidade aos princípios cristãos só são possíveis (e concebíveis) a partir de nossa lealdade a Cristo, aquele a quem amamos porque nos amou primeiro.
3.        Desenvolva um relacionamento de confiança com Cristo. Se todas as afirmativas da fé cristã são verdadeiras, Cristo está hoje tão (ou mais) vivo e presente quanto nos dias em que pisou as areias da Palestina, há 2000 anos. Ele está ativamente interessado no destino e nas escolhas de seus seguidores: ele quer ainda orientá-los, supri-los e surpreendê-los.
O privilégio da vida cristã é, então, desenvolver um relacio­namento de confiança com o Cristo vivo. Aprender, como fizeram os discípulos antes de nós, a confiar em suas palavras e em suas decisões.
Isso não significa, naturalmente, que Jesus fará sempre o que você espera dele (basta ler os Evangelhos para aprender com os que conviviam com Cristo quão raramente isso acon­tecia). Significa conhecê-lo a ponto de perceber que ninguém é mais digno de confiança; aprender que é parte surpreenden­te do projeto dele tornar-nos também a nós, os falhos, gente digna de alguma confiança.
Ele, que distribuía desafios como: "Ide, portanto, fazei dis­cípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco to­dos os dias até à consumação do século" (Mt 28:19, 20).
A última palavra deve ser sempre de Cristo.
Paulo Purim. IN: Yancey, P. Desventuras da vida cristã.

Eu cuido muito bem de mim mesmo

Eu cuido muito bem de mim, mas muito bem mesmo. Por exemplo, sempre que estou com fome, eu me dou de comer. Sempre que estou sujo, eu me dou banho. Esco­vo os dentes, limpo o rosto, lavo as roupas, lavo e pen­teio o cabelo, e quase nunca esqueço de limpar as unhas.
Sempre que me machuco, cuido de mim. Se for um corte, passo um band-aid em volta. Se for mais sério, procuro alguém que possa me ajudar. Quando estou doente, tomo todos os tipos de remédio.
Quando me sinto sozinho, passo normalmente o tem­po com minha família ou meus amigos, ou com alguém que me compreenda.
Se estou com sede, normalmente bebo água, um refri­gerante ou leite — qualquer coisa que mate a sede.
Quando acontece de eu estar com calor, visto-me com roupas leves, ligo o ventilador ou o ar-condicionado ou bebo algo gostoso e gelado. Se estiver com frio, ligo o aquecedor, me agasalho ou bebo algo quente.
As vezes tenho perguntas. Apanho então um livro e encontro respostas. Ou então faço alguns cursos.
Sempre que estou de fato cansado, vou para a cama.
Na verdade, cuido muito bem de mim; em certo sen­tido, eu me amo.
Jesus disse: "Ame seu próximo como ama a si mesmo".
Gary Sloan. In: Yanceu, P. Desventuras da vida cristã.

Aqueles a quem Jesus "ama mais"

A Bíblia nos ensina que “Jesus amava à Marta, e a sua irmã e a Lázaro” (Jo 11:5). Além disso, nos ensina que dos 12 discípulos que Jesus tinha, 3 eram mais próximos dele (Pedro, Tiago e João) e destes 3, havia um que era ainda mais próximo, o qual a Bíblia chama de “o discípulo amado” (Jo 19:26).
A princípio, isso me despertava uma certa indignação. Afinal, não diz a Bíblia que Deus não faz acepção de pessoas?1 Não deveria Jesus amar a todos de igual maneira? Por que, então, as Escrituras dizem que Jesus amava a algumas pessoas em particular?
Descobri que realmente Deus não faz acepção de pessoas, mas algumas pessoas conseguem tocar mais o coração de Deus do que outras. Há níveis em nossa experiência com Deus. Alguns o experimentam somente com lóbulo frontal do cérebro. Outros o experimentam com o coração. Alguns buscam sua face. Outros buscam suas mãos somente.
Para Deus, o ser vem antes do fazer, e o estar antes do abençoar. Deus está interessado em nos abençoar, mas está mais interessado em ter comunhão conosco (e que todas as bênçãos derivem desta comunhão). A Trindade é um exemplo de perfeita comunhão, perfeita, indissolúvel e existente antes da criação do mundo, e Ele quer nos incluir neste círculo de amor e intimidade. O Pai se contentou tanto em seu Filho que resolveu aumentar sua família e cloná-lo na Criação. Ele quer estar em nós, assim como está em seu Primogênito, quer dar amor e desfrutar de nosso amor, assim como o faz com o Primogênito.
Sim, Deus está interessado em que o sirvamos, mas está mais interessado que estejamos apaixonados por Ele e que busquemos sua face. O Senhor não quer as nossas obras. Ele quer nosso coração. Ele quer que, como o discípulo amado, nos reclinemos sobre seu ombro, escutemos as batidas de seu coração e os segredos que Ele quer conosco compartilhar. Ele quer que, assim como Maria, quebremos diante dele o alabastro de nosso ser, liberando o aroma suave de nossa mais genuina adoração, mergulhando nesta linda relação de amor, ignorando o preconceito e as convenções sociais/religiosas que nos acanham.
De fato, Deus não faz acepção de pessoas. Ele oferece a todos a mesma quantia infinita de seu amor. Mas as Escrituras nos ensinam que algumas pessoas provocam a manifestação deste amor em uma maior intensidade. Enquanto alguns buscam a Deus como Pai, outros somente o usam como um analgésico.
Vivemos em tempos de consumismo religioso, onde as Boas Novas são oferecidas como um mero produto para o benefício do consumidor. A experiência que muitos têm com Deus está limitada a ler uma lista de pedidos diante d’Ele. Outros, usam a Deus como uma espécie de aspirina quando “têm uma dor de cabeça”. Muitos outros estão na maratona do ativismo religioso para “ficar bem na fita” e reservar seu lugarzinho “no céu”. Mas quantos estão interessados em “serem amados por Ele”?
NOTA
[1] Dt 10:17, Ef 6:9, Tg 2:1 e 1 Pe 1:17.

© Pão & Vinho
Este texto está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcialmente ou na íntegra, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada:http://paoevinho.org.

Onde está Deus, está o Amor - Um conto de Tolstoi

Havia numa cidadezinha um sapateiro chamado Mikail Avdeievitch. Morava num porão cuja única janela dava para a rua, na altura do chão. Embora visse apenas os pés de quem passava pela rua, Mikail conhecia todas as pessoas pelos sapatos que usavam. Como já era velho e competente em seu trabalho, era raro um par de botas que não houvesse passado por suas mãos, fosse para um remendo, uma meia-sola ou para colocar um novo cano. Assim, era comum ver passar pela janela uma obra sua.
Mikail estava sempre muito ocupado, pois trabalhava com perfeição, usava material de boa qualidade, não cobrava caro e entregava no prazo prometido. Por isso todos o estimavam e nunca lhe faltava serviço.
Sempre fora um homem bom mas, ao envelhecer, começou a se preocupar com sua alma e queria se aproximar de Deus. Sua mulher tinha morrido quando ele ainda era aprendiz, deixando um filho de três anos. Haviam tido outros filhos antes, mas todos tinham morrido. Ao se ver só com o menino pensou em mandá-lo para a casa de um tio, na aldeia, mas ponderou: “Será muito triste para o pequeno Karp viver longe de mim. É melhor ficar mesmo comigo”.
Pouco tempo depois, despediu-se do patrão e abriu sua própria oficina. Deus, porém, não velava muito por seus filhos. Quando o que lhe restara se tornou rapaz e começou a ajudá-lo, adoeceu e morreu em uma semana.
Mikail enterrou o filho. A perda feriu-lhe de tal modo o coração que chegou a murmurar contra a justiça divina. Sentia-se tão infeliz que implorava a Deus que lhe tirasse também a vida. Censurava o Senhor por não levar a ele, que já era velho, em lugar do filho único tão querido, e deixou de ir à igreja.
Um dia, na época da Páscoa, chegou à casa do sapateiro um conterrâneo seu que há oito anos percorria o mundo como peregrino. Conversaram muito tempo e Mikail se queixou amargamente da sua desgraça.
- Perdi o desejo de viver, agora só espero a morte. Peço a Deus que me leve, pois não tenho mais ilusões na vida.
- Não fale assim, Mikail. Os homens não devem julgar a vontade do Senhor, pois suas razões estão acima do nosso entendimento. Se Ele decidiu que seu filho morresse e você vivesse, tem que ser assim. Você se desespera porque só quer viver para sua própria felicidade.
- E para que viver, se não para isso? - perguntou o sapateiro.
- É preciso viver para Deus. É ele quem dá a vida e para ele devemos viver. Quando entender isso, seu sofrimento terminará e você suportará tudo com paciência e resignação.
Mikail ficou calado por um momento, e disse:
- E como se vive para Deus?
- Como Cristo ensinou. Você sabe ler? Pode aprender nos Evangelhos. Na Sagrada Escritura você encontrará resposta para todas as perguntas.
Essas palavras calaram fundo no coração de Mikail. No mesmo dia comprou um exemplar do Novo Testamento, impresso em letras bem grandes, e começou a ler.
Pretendia pegá-lo somente nos dias de folga, mas o texto lhe trazia tal consolo à alma que foi adquirindo o hábito de ler algumas páginas todos os dias. Às vezes se entretinha de tal modo que só deixava o livro quando o óleo da lâmpada terminava.
Lia todas as noites. À medida que progredia na leitura, ia compreendendo com maior clareza o que Deus exigia, como viver para Deus, e a alegria penetrava docemente em sua alma.
Acostumado a ir se deitar gemendo e suspirando com a lembrança dos filhos, agora dizia:
- Glória a Deus, glória ao Senhor, pois essa foi a sua vontade.
A vida do sapateiro transformou-se completamente. Antes, nos dias de festa, ia para a taberna tomar chá e, por vezes, um gole de vodca com os amigos. Nessas ocasiões saía da taberna não propriamente embriagado, mas um tanto eufórico, e dizia bobagens, chegava a insultar quem encontrava no caminho.
Agora tudo mudara. Sua vida transcorria em harmonia e paz. Punha-se a trabalhar ao amanhecer e, terminado o dia, colocava a lâmpada sobre a mesa, tirava o livro da prateleira e sentava-se para ler. Quanto mais lia, melhor compreendia e uma suave serenidade envolvia-lhe a alma.
Uma noite estendeu a leitura até bem tarde e, chegando ao capítulo VI do Evangelho de São Lucas, encontrou os seguintes versículos:
“Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra. Ao que te tirar o manto, não o impeças de levar também a túnica. Dá a todo aquele que te pede; e ao que leva o que é teu, não lhe tornes a pedir. O que quereis que vos façam os homens, fazei-o também a eles”.
A seguir, leu que o Senhor disse:
“Por que me chamais: Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos digo? Todo aquele que vem a mim, que ouve minhas palavras e as põe em prática, eu vos mostrarei a quem ele é semelhante. É semelhante a um homem que, edificando uma casa, cavou profundamente e pôs os alicerces sobre a rocha. Vindo uma inundação, investiu a torrente contra aquela casa e não pôde movê-la, porque estava bem edificada. Mas o que ouve e não pratica é semelhante a um homem que edificou a sua casa sobre a terra, sem fundamentos. Investiu a torrente contra ela e logo caiu, e foi grande a ruína daquela casa.”
Ao ler essas palavras, seu coração se inundou de alegria. Deixou os óculos sobre o livro e apoiou os cotovelos na mesa, imerso em reflexão. Comparou seus próprios atos a essas palavras, e disse:
- Minha casa está fundada sobre rocha ou sobre areia? Seria bom se estivesse apoiada na rocha. A felicidade nos domina quando estamos em paz com a consciência, procedendo como Deus quer. Quando nos esquecemos de Deus podemos cair outra vez em pecado. Continuarei como estou, pois sinto que é bom. Que Deus me proteja!
Mergulhado nesses pensamentos, resolveu ir se deitar. Mas relutava em largar o livro e começou o sétimo capítulo. Leu a história do centurião, a do filho da viúva e a resposta de Jesus aos discípulos de São João. Chegou ao trecho em que o rico fariseu convidou Jesus para ir à sua casa, onde a pecadora ungiu-lhe os pés e os lavou com suas lágrimas e Ele perdoou-lhe os pecados, e leu ainda:
“E voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa, não me deste água para os pés; ela, com as suas lágrimas me banhou os pés, e enxugou-os com os cabelos. Não me deste o ósculo da paz; porém ela, desde que entrou, não cessou de beijar os meus pés. Não ungiste minha cabeça com bálsamo, porém esta ungiu com bálsamo os meus pés.”
Ao ler esse versículo, Mikail pensou: “Não lhe deu água para os pés, não o beijou, não ungiu a cabeça dele com bálsamo...” Tornou a tirar os óculos, colocou-os sobre o livro e voltou às reflexões. “Aquele fariseu deve ter sido como eu. Ele também só pensava em si mesmo - tomar o seu chá, estar agasalhado, confortável, nem um pensamento para o hóspede. Cuidava de sua vida e nem pensava no conforto do convidado. E quem era esse convidado? O próprio Deus! Se Ele viesse me visitar, eu faria a mesma coisa?”
Mikail apoiou a cabeça nos braços cruzados sobre a mesa e, sem se dar conta, adormeceu.
- Mikail! - disse uma voz de repente, sussurrando em seu ouvido. Despertou assustado. - Quem é? - perguntou.
Olhou em volta, olhou para a porta, não viu ninguém. A voz tornou a chamar, desta vez com mais clareza.
- Mikail, Mikail! Olha para a rua amanhã, pois eu virei.
Mikail levantou-se da cadeira, esfregando os olhos, sem saber se ouvira as palavras num sonho ou acordado. Apagou a lâmpada e foi dormir.
No dia seguinte levantou-se antes do amanhecer, fez suas orações e acendeu o fogo para preparar a sopa de repolho e o mingau. Mantendo acesa a chama do samovar, vestiu o avental e sentou-se junto à janela para trabalhar.
Não conseguia afastar o pensamento do que acontecera na véspera, sem saber se fora uma alucinação ou se alguém falara realmente.
- São coisas que acontecem na vida - disse a si mesmo.
Continuava a trabalhar, espiando de vez em quando pela janela e, quando passavam botas desconhecidas, levantava-se para ver o rosto da pessoa.
Passou um carregador calçando botas novas de camurça, passou um velho soldado do tempo de Nicolau, com botas de cano alto tão velhas e remendadas quanto ele próprio. Esse soldado chamava-se Stepanovitch. Morava na casa de um comerciante da vizinhança, que o acolhia por caridade. Para dar-lhe uma ocupação condizente com a idade avançada, encarregara-o de ajudar o porteiro.
Stepanovitch parou em frente à janela e, com uma pá, começou a tirar a neve da rua. Mikail olhou para ele e continuou a trabalhar.
- Sou mesmo um tolo - disse ele, rindo de si mesmo. - Stepanovitch está limpando a neve e imagino que Cristo vem me visitar. Estou delirando. Estou louco.
Mal tinha dado dez pontos, porém, voltou a olhar pela janela e viu a pá encostada à parede e o velho soldado tentando se aquecer. “Esse infeliz está muito velho - pensou Mikail. - Já não tem forças para tirar a neve. Uma xícara de chá lhe faria bem. E o samovar está fervendo.”
Cravou a sovela no tamborete, levantou-se, pôs o samovar na mesa, colocou mais água e deu uma pancadinha na janela. Stepanovitch virou-se. Mikail fez-lhe um sinal e foi abrir a porta.
- Entre. Venha se aquecer, você deve estar com frio.
- Valha-me Deus! Muito frio! Os ossos chegam a doer - disse o velho.
Sacudiu a neve dos pés, para não sujar o chão e quase caiu ao entrar, tão trôpego estava.
- Não se preocupe com a neve nos pés. Vou ter mesmo que varrer o chão; não faz mal sujá-lo. Venha, vamos tomar um chá.
Mikail serviu duas xícaras de chá escaldante e deu uma ao hóspede. Derramou um pouco no pires e soprou para esfriá-lo.
Ao terminar, o soldado colocou a xícara emborcada no pires e, em cima dela, o resto do tablete de açúcar. Agradeceu ao sapateiro, mas estava claro que tomaria de bom grado mais uma xícara do chá quente.
- Tome mais - disse Mikail, enchendo de novo as duas xícaras. A cada gole, olhava pela janela.
- Está esperando alguém? - perguntou o convidado.
- Se estou esperando alguém? Tenho vergonha de dizer a quem espero. Nem sei se tenho razão para esperar ou não, mas ontem à noite ouvi uma coisa que não me sai da cabeça. Se foi verdade ou fantasia, não sei. Sabe, meu amigo, ontem à noite eu estava lendo o Evangelho... Jesus sofreu muito entre os homens! Já ouviu falar nisso, não?
- Sem dúvida, já ouvi falar, mas sou ignorante, não sei ler...
- Pois eu estava lendo a história de Jesus na Terra e cheguei à parte em que ele foi à casa de um fariseu que não o recebeu bem... Depois fiquei pensando como seria possível não receber bem Jesus Cristo. Se acontecesse a mim, nem sei o que faria em sua honra! Mas o fariseu não o tratou bem. Enquanto pensava nessas coisas, adormeci. De repente, ouvi alguém dizer meu nome. Acordei, e parecia que alguém sussurrava: “Espere, que eu virei amanhã.” Disse duas vezes seguidas. E por incrível que pareça, apesar de ter vergonha de acreditar nisso, estou esperando a visita do Senhor!
O soldado balançou a cabeça sem nada dizer, terminou de beber o chá e emborcou a xícara, mas Mikail tornou a enchê-la.
- Tome mais, o chá faz bem. Acho que o Senhor nunca rejeitou ninguém, quando andava pelo mundo. Andava com os humildes, visitava os pobres. Os discípulos eram gente simples como nós, pescadores, artesãos. “O que se exalta será humilhado e o que se humilha será exaltado... Chamais-me Senhor e eu vos lavo os pés; aquele que quiser ser o primeiro deve ser o servidor dos demais. Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus.”
Stepanovitch tinha esquecido sua xícara de chá. Era um velho sensível. Ouvindo as palavras de Mikail, as lágrimas corriam pelo seu rosto.
- Vamos, tome mais - disse o sapateiro.
O soldado fez o sinal da cruz, agradeceu e, afastando a xícara, se pôs de pé.
- Agradeço muito, Mikail por me receber tão bem, satisfazendo ao mesmo tempo meu corpo e minha alma.
- Estou sempre ao seu dispor. Venha sempre que quiser, tenho prazer em recebê-lo.
- Quando Stepanovitch saiu, Mikail terminou seu chá e voltou a se sentar junto à janela para trabalhar.
Enquanto costurava, espiava pela janela pensando em tudo o que tinha lido, em tudo o que Jesus dissera.
Passaram dois soldados; um calçava botas do Governo e o outro botas dele mesmo. Depois passou um nobre de galochas e, em seguida, um padeiro carregando um cesto.
Apareceu uma mulher em meias de lã e sapatos de camponesa. Passou em frente à janela e encostou-se à parede. Através da vidraça, Mikail olhou para aquela desconhecida com uma criança nos braços, de costas para o vento. Em vão procurava abrigar a criança, pois não tinha com que envolvê-la. Apesar do frio, a mulher usava roupas de verão, velhas e gastas.
Junto à janela, Mikail ouvia o choro do bebê e via os inúteis esforços da mãe para consolá-la. Levantou-se, abriu a porta e, indo até a rua, gritou:
- Ei, ei, você! Está ouvindo?
A mulher voltou-se para ele.
- Não fique aí nesse frio com a criança. Entre aqui. Pode aquecê-lo melhor aqui dentro. Entre...
A mulher olhou, surpresa, aquele velho de avental e óculos na ponta do nariz que lhe fazia sinais para entrar, mas aceitou.
Desceram os degraus até o pequeno cômodo.
- Venha, sente-se aqui, junto ao fogão. Venha se aquecer para dar de mamar ao menino.
- Não tenho mais leite. Não como nada desde a manhã - disse a mulher, dando mesmo assim o peito à criança.
O sapateiro olhou para o outro lado. Pegou na mesa um pedaço de pão e uma tigela, foi ao fogão e encheu a tigela de sopa. Vendo que o mingau ainda não estava bem cozido, cobriu a mesa com uma toalha, pôs os talheres e serviu só a sopa e o pão.
- Sente-se, venha comer. Eu cuido do menino. Também já tive filhos, sei lidar com crianças.
A mulher fez o sinal-da-cruz, sentou-se à mesa e começou a comer. Mikail deitou o menino na cama e sentou-se ao lado. O menino chorava e Mikail fingiu ameaçá-lo, levando o dedo ao rostinho, mas sem tocá-lo, porque sua mão estava suja de alcatrão. Atento ao movimento do dedo, o bebê parou de chorar e começou a rir.
Enquanto comia, a mulher contou de onde vinha.
- Meu marido é soldado, mas faz oito meses que o levaram e não tenho notícias dele. Trabalhei como cozinheira, mas depois que o bebê nasceu não me quiseram mais. Não trabalho há três meses; já gastei tudo o que tinha. Tentei ser ama-de-leite, mas dizem que estou muito magra e não me aceitam. Fui à casa de uma mulher, onde minha filha trabalha, e me prometeram trabalho, mas só daqui a uma semana... Ela mora muito longe. Fiquei muito cansada e o bebê também. Minha patroa teve pena de mim e nos deixa dormir na casa dela, graças a Deus. Senão, não sei o que seria de nós.
- Não tem uma roupa mais quente? - perguntou o sapateiro.
- Não. Empenhei meu último xale de lã ontem, por vinte copeques.
A mulher foi até a cama pegar a criança. Mikail procurou entre as roupas penduradas na parece e encontrou um velho manto de lã.
- Tome. Está bem usado, mas serve para aquecer.
A mulher olhou para o agasalho, olhou para o sapateiro e, pegando o presente, desatou a chorar. Comovido, Mikail abaixou-se e pegou um bauzinho que estava sob a cama. Remexeu no baú e sentou-se diante da mulher.
- Deus lhe pague - ela disse. - Foi Ele quem me trouxe à sua janela. Não estava tão frio quando saí, mas agora meu filho estava quase congelando. Foi Deus que fez você olhar pela janela e ter compaixão de nós.
Mikail sorriu.
- Sim, foi Deus. Não olhei por acaso - e Mikail contou à mulher que ouvira a voz dizer que Jesus viria à sua casa.
- Tudo pode acontecer - disse ela, levantando-se.
Pegou o manto, enrolou o menino e agradeceu, inclinando-se diante do sapateiro.
- Tome isso, em nome de Deus - ele disse, passando à mão dela uma moeda de vinte copeques. - É para resgatar seu xale.
A mulher fez o sinal-da-cruz. Mikail imitou o gesto e acompanhou-a até a porta.
Depois da sopa, Mikail voltou ao trabalho. Enquanto manejava a sovela, espiava a rua. A cada vulto que se aproximava, levantava os olhos para ver quem era. Alguns eram conhecidos, outros não.
A certa altura, uma velha vendedora de maçãs parou em frente à janela. Restavam poucas maçãs na cesta; certamente já vendera a maior parte. Ela carregava nas costas um saco de gravetos que devia ter apanhado perto de alguma carvoaria e agora levava para casa. Parecia que o ombro lhe doía ao peso do saco e queria trocá-lo de lado. Deixou a cesta no vão da janela e pôs o saco no chão. Enquanto se ocupava em ajeitar os gravetos dentro do saco, apareceu um garoto e roubou uma das maçãs. Antes que conseguisse fugir, a velha agarrou-o pela manga. Ele se debatia, tentando escapar, mas a velha arrancou-lhe o gorro e puxou seus cabelos. O garoto gritava e a velha estava furiosa.
Sem perder tempo em fincar a sovela, Mikail largou-a no chão e correu para a porta. Subiu os degraus aos tropeções, seus óculos caíram na correria e ele chegou à rua. A mulher batia no menino e puxava seus cabelos, ameaçando entregá-lo à polícia. O garoto continuava a se debater, negando o furto da maçã.
- Não tirei nada! Por que está me batendo? Me solte!
- Mikail separou os dois, segurou a mão do menino e disse:
- Solte-o. Perdoe o menino.
- Perdoar? Ele nunca vai se esquecer de mim. Vou levá-lo à polícia agora mesmo! Ladrão!
- Por favor, solte o menino. Ele não vai mais fazer isso. Deixe-o, em nome de Cristo.
A velha soltou o garoto. Antes que ele saísse correndo, Mikail segurou-o.
- Peça perdão e nunca mais faça isso. Eu vi você pegando a maçã.
O menino começou a chorar e pediu perdão, soluçando.
- Não chore. Tome, eu dou essa maçã para você - disse Mikail, tirando uma maçã da cesta e entregando-a ao menino.
- Está mimando demais esse ladrãozinho - disse a velha. - Seria melhor dar-lhe uma surra para ele se lembrar a semana inteira.
- Nós pensamos assim, mas Deus não nos julga assim. Se é certo surrar esse menino por causa de uma maçã, o que Deus terá que fazer conosco por causa de nossos pecados?
A velha ficou calada. Então Mikail contou-lhe a parábola do Senhor que perdoou a dívida do servo e o mesmo servo quis esganar um devedor. A velha e o menino ouviam, quietos.
- Deus nos ensina a perdoar - disse Mikail - para sermos perdoados. Perdoar a todos, e mais ainda a um garoto sem juízo.
A velha concordou com um aceno de cabeça e suspirou.
- É verdade - ela disse - mas eles estão muito mal-educados.
- Então nós, mais velhos, devemos educá-los melhor.
- Eu sempre achei - ela concordou. - Eu tive sete filhos, e só resta uma filha - e a velha contou que morava com a filha e os netos. - Já estou velha e fraca, mas trabalho muito para cuidar dos meus netos. São crianças lindas! Tão carinhosos comigo! Aksiutka, então, só quer ficar comigo. É só “vovozinha, vovozinha querida” - enquanto falava ia ficando comovida.
- Claro que foi só criancice - ela disse, referindo-se ao garoto. - Vai com Deus, meu filho.
Estava prestes a pôr o saco no ombro quando o menino disse:
- Deixe-me levar o saco para a senhora. Também vou para esse lado.
A velha aceitou e se foram. Ela nem se lembrou de cobrar a maçã a Mikail. O sapateiro ficou olhando os dois se afastarem, conversando. Entrou em casa, encontrou os óculos caídos na escada, inteiros, pegou a sovela e voltou a trabalhar. Logo não havia mais luz suficiente para costurar e Mikail viu passar na rua o acendedor de lampiões. “Preciso acender a lâmpada”, pensou. Encheu de óleo o candeeiro, pendurou-0 e continuou o serviço. Terminou uma bota, examinou-a e aprovou o trabalho. Guardou as ferramentas, arrumou os cordões e sovelas, varreu os retalhos e colocou a lâmpada na mesa. Pegou o Evangelho na prateleira. Pretendia continuar onde tinha parado na véspera, mas o livro se abriu em outra página. O sonho voltou-lhe à mente e julgou ouvir passos no canto mais escuro, mas não distinguia bem quem eram. Uma voz sussurrou em seu ouvido:
- Mikail, Mikail, não me conhece?
- Quem é você? - ele murmurou.
- Sou eu - disse a voz. - Sou eu - e Stepanovitch saiu sorrindo do canto escuro e desapareceu, desfazendo-se numa nuvem.
- Sou eu - disse a voz. E da penumbra saiu sorrindo a mulher carregando a criança, que também sorria, e desapareceram.
- Sou eu - disse a voz mais uma vez. Surgiram a velha e o garoto com uma maçã na mão e desapareceram sorrindo. O sapateiro sentiu uma intensa alegria no coração. Fez o sinal-da-cruz, pôs os óculos e começou a ler o Evangelho na página aberta.
“Tive fome e deste-me de comer; tive sede e deste-me de beber; eu era estrangeiro e me acolheste.”
No final da página, estava escrito:
“O que tiverdes feito pelo menor dos meus irmãos, é a mim que fizestes.”
Mikail compreendeu então que seu sonho fora verdadeiro. O Salvador viera à sua casa naquele dia e ele o havia acolhido. 
(Léon Tolstoi - Conto escrito em vida).